Tenho pensado muito na forma como viviam e vivem os Ìndios, a pureza, a sabedoria, alimentação, costumes. Além de eu ser descendente de Índios, minha pesquisa sobre a Ecocrítica, em especial na obra Avalovara, de Osman Lins, tem caminhado para este lado. Ou sou eu que tenho me inclinado à isso? O fato é que pela perspectiva da Ecocrítica não existe uma linha divisória entre humanos e não humanos, a natureza e seus elementos estão integrados e mediam as relações entre os seres. Por tudo isso, ninguém melhor que os primeiros donos da nossa natureza para que percebamos a importância do meio ambiente e do amor que deveríamos ter com ele.
Este livro retrata todo esse amor
e respeito.
domingo, 22 de setembro de 2013
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Contos de Som e Silêncio
Para quem gosta de literatura, arte, música, inovação, etc., ofereço meu livro e de meus colegas de contos! São contos inspirados em letras de músicas, a minha é Medo da Chuva, de Raul Seixas e Paulo Coelho. Há outros 12 contos com autores de diversas partes do Brasil, diversas músicas para sonhar, viajar. Seguem os nomes dos autores:
Alexandre Braoios,
Bertolina Maffei,
Carolina Utinguassu Flores (eu),
Clara Oliveira,
Érika Gentile,
Evelena Boening,
Fatima de Barros Plein,
Fernanda Carvalho,
Isi Caruso,
Jussara Maria Nodari Lucena,
Marcelo Spalding,
Marcio Tadeu Furrier e
Valesca dos Santos Pederiva.
LER É MANTER-SE VIVO, CRIAR É
PARTICIPAR DO MUNDO, PESQUISAR É
EXPANDIR HORIZONTES, COMPARTILHAR É
ESTAR NO CENTRO DA TERRA, REGAR A ÁRVORE É ADQUIRIR GALHOS, GALHOS SÃO CONHECIMENTO, CONHECIMENTO É MANTER-
-SE VIVO PARA REPETIR A LEITURA.
Tudo é repetição em ritmo, a cada repetição
eu cresço. A espiral nunca acaba.
Por Carolina Utinguassu Flores
Interessados em comprar esta bela coletânea (R$ 15,00) entrar em contato pelo e-mail: carolflores02@hotmail.com
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| Livro coletivo - Organizado por Marcelo Spalding |
Alexandre Braoios,
Bertolina Maffei,
Carolina Utinguassu Flores (eu),
Clara Oliveira,
Érika Gentile,
Evelena Boening,
Fatima de Barros Plein,
Fernanda Carvalho,
Isi Caruso,
Jussara Maria Nodari Lucena,
Marcelo Spalding,
Marcio Tadeu Furrier e
Valesca dos Santos Pederiva.
LER É MANTER-SE VIVO, CRIAR É
PARTICIPAR DO MUNDO, PESQUISAR É
EXPANDIR HORIZONTES, COMPARTILHAR É
ESTAR NO CENTRO DA TERRA, REGAR A ÁRVORE É ADQUIRIR GALHOS, GALHOS SÃO CONHECIMENTO, CONHECIMENTO É MANTER-
-SE VIVO PARA REPETIR A LEITURA.
Tudo é repetição em ritmo, a cada repetição
eu cresço. A espiral nunca acaba.
Por Carolina Utinguassu Flores
Interessados em comprar esta bela coletânea (R$ 15,00) entrar em contato pelo e-mail: carolflores02@hotmail.com
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
A ESPAÇOSA
Quero escrever, escrevo agora como nunca escrevi antes. Todos os nomes
me vêm à mente, expressões e vontades irrequietas para serem projetadas,
produzidas e empurradas para o grande mundo que existe fora da barriga.
Achava que não gostava de poesia, achava que não conhecia a métrica, o
ritmo e a profundidade de poetizar. Achava que não iria querer coisas que,
agora, se encaminham para um “sim, eu aceito”. Parecia que nunca casaria e
então, como um presente de Deus espontâneo eu tenho agora o maior de todos os
casamentos do cosmos e suas raízes, de
outros pequenos casamentos, outros radianos com diferentes ângulos que se desprendem do
núcleo que gira em torno de uma grande luz. Vejo a luz contornando os caminhos,
vejo a luz mesmo quando ela dá lugar à escuridão que também é bela.
Obrigada Renato Russo por cantar para mim sem eu pedir e me mostrar o
que nunca enxerguei nas palavras soltas que simbolizam o que pensava minutos
antes, se disciplina é liberdade, já estou livre. Hoje eu sofro para rir, e
muito, amanhã.
Estou quietinha, mas trabalhando a mente. Meu descanso é quando
exercito o corpo. Estou no caminho certo, ninguém precisa afirmar, sei quando
estou errada e quando não estou. Crio, copio, modifico, parafraseio, conto. Tudo
começa em um conto, por isso comecei, fiz, faço e farei. Não farei para ganhar
dinheiro, farei para que um dia eu não esteja mais aqui e escute de cima muitas
vozes falando de minhas obras e pontos de vista. Então não morrerei. Será, então,
que reencarnarei? Se reencarnar, ouvirei as vozes chamando meu antigo nome? As
engrenagens lunares e solares estão engrenadas
entre o movimento planetário mágico e cíclico, infinitamente gerando o caos,
pois nada é totalmente linear. Assim não é o ciclo masculino, muito menos será
o feminino.
O que seria dos inteligentes se não existissem os burros? O que seria
dos espaços vazios se não existissem os espaços preenchidos? Nada existiria,
nada se sobressairia ou se confundiria. Se meus quadris não doessem mais eu
poderia ser mais feliz, mas quem não tem limitações? Quem não tem seu lado
ímpar? Não sou retilínea, não sou curvilínea, tenho minha própria forma, ordem
e espaço. Sou “uma” coisa única, mas não sou redonda. Sou limitada, mas não
quadrada. Achava que não queria. Achava que não chegaria a ser geométrica.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Orgulho de ser pensante
As pessoas felizes não agridem. A crueldade é característica
dos cultos. Quem é inteligente, não precisa xingar, ser grosso ou gritar,
apenas dizer o necessário para tocar fundo o receptor. A violência é fruto da
nossa falta de comunicação ou estudo. As mágoas não levam a nada, são prisões
com fortes grades que ofuscam o brilho dos olhos, mas existem. Só sei que, por
mais que elas queiram fazer parte de mim, eu não vou deixar. Mesmo que esteja
sozinha. Aproveito a falta de convite, aproveito meu momento. Então, por que não perdoar? Relevar? Perdoar é
sabedoria, não é fraqueza, é ser nobre, é saudável. Só assim é que chegamos a
um progresso interior que permite à felicidade se instalar. Antes dela, temos
que chorar muito mais do que sorrir para dar valor ao que já adquirimos.
Devemos ter um projeto que envolve educação da mente, reforma espiritual e mentalização. O ciúme
também consome muita energia... deixe de lado, se não for algo realmente sério.
Quando nos achamos azarados, pé-frio ou dedo podre, de algum desses acontecimentos, que às vezes parece ser ruim, surge o
lado bom. O projeto é ser feliz. Se eu tivesse que anotar algo para colocar na
minha lápide do cemitério, colocaria meu tempo de felicidade subtraídas as tristezas, pois
meus dias felizes são incontáveis.
Lembre-se:
Quem lê enxerga melhor nas entrelinhas e nos simbolismos da
Palavra.
Crie, invente, brinque!
Use de acurácia ao escrever, lapide, transforme seu texto!
Organizar o pensamento inaugura mundos novos, escolhas e
ações.
Concilie vida e palavra
Invente um D. Pedro III
domingo, 14 de abril de 2013
OURO DE TOLO
Eu tinha
apenas cinco anos. Morávamos em uma casa na Lapa. Meu pai era alcoólatra. Certa
vez, chegou em casa “naquele estado”, bateu em minha mãe, em mim e quebrou tudo
dentro de casa. Ela também batia nele. Esta cena se tornou comum. Eu não
entendia muita coisa, só sentia medo. Era estranho ver minha mãe sempre triste,
os vizinhos sempre preocupados e oferecendo ajuda. Era um clima de incertezas e
pânico. Cada vez que ele chegava bêbado, meu peito doía, mesmo com toda a
vontade de brincar que existe dentro de uma criança desta idade, vinha uma
imensa sensação de paralisia. Minha mãe não aguentou mais aquela situação,
mandou-o embora e pediu ajuda aos vizinhos. Ele foi, levando todos os nossos
móveis, com exceção da geladeira, fogão, um colchão, televisão, umas almofadas
e o rádio. Na outra semana, porém, estava eu sentado nas almofadas vendo
televisão e ele chegou. “Oi filho”, disse ele entrando. Assustado e
acompanhando seus passos eu respondi apenas “Oi”. Ele pegou o rádio, explicando
que era dele e precisava levá-lo. Quando minha mãe chegou do trabalho contei a
ela. Sentou-se no chão e chorou calada. Perguntei por que ela estava chorando.
Ela me disse que estava apenas lavando os olhos por dentro. Tivemos muitas
dificuldades financeiras e passamos fome por dois anos. Para ela sair para
trabalhar era necessário que eu esquentasse minha comida para almoçar, sozinho,
assim como ir para o colégio, sozinho, pegando dois ônibus. Eu tinha seis anos.
Minha adolescência foi conturbada, não queria
estudar nem pensar em trabalho. Só queria namorar, andar de skate, desenhar,
jogar bola e vídeo game. Quando fiz dezenove anos, percebi que era hora de
mudar, via minha mãe desesperada para nos sustentar, “ainda”, fazendo tudo para
que eu tivesse mais responsabilidade. Mas eu não sabia o que fazer e ficava
nervoso. Quando sentia aquele aperto no peito, pensava na única coisa que meu
pai me ensinou, num dia que estava sóbrio. Ele me disse: “Quando você ficar
nervoso ou com medo, respire fundo até acabar o ar do pulmão e solte
lentamente, que então passará”. Via as outras pessoas trabalhando normalmente,
e eu, naquele dilema. Se gostava de algo, ou não, nem sabia. Quando me olhava
no espelho sentia nojo daquela imagem: magricelo, barbudo, alto demais. Minhas
roupas eram todas velhas, de pessoas que não as queriam mais. Precisava de um
emprego pelo menos para comprar coisas que ela não podia me dar. Elaborei uma
lista de coisas que gostava. Eu gostava de desenho, música e de ler. Precisava
de um norte. Uma tia minha me disse que isso tudo era um hobby. Continuei
desenhando e ouvindo minhas músicas. Meus desenhos eram macabros, demoníacos e
monstruosos. Como alguém, além de mim, poderia gostar deles? Acho que a música
sempre me inspirou. Sem ela, eu não fazia nada, nem comia. Senti muita vontade
de comprar um violão e aprender a tocar. Minha família toda estava preocupada
comigo, minhas primas, tios e tias, avó e... arrumei um amigo, que também se
mostrava confuso com minhas escolhas, ou a falta delas. O cara se chamava
Érico, e eu, desculpe não ter me apresentado antes, me chamo Léo. Leonardo
Martins. Ficamos amigos um dia que ele se interessou por um papel amassado que
joguei no pátio dele. Era para ter ficado furioso, se fosse eu, ficaria.
De vez em
quando ele me pedia para fazer certos tipos de desenhos com foco em quadrinhos,
charge, etc. Tinha o apoio dele, então, finalmente estava decidido a buscar
trabalho como Desenhista. Eu não queria mais aceitar a ideia de que era apenas
um hobby. Eu sabia que tinha algum talento. Através do Érico conheci outras
pessoas da Lapa que quase toda a semana se encontrava nos ensaios da Banda.
Convidaram-me para tocar com eles diversas vezes, mas eu não estava preparado.
Eu aproveitava para comer bastante das pidzzas da mãe do Érico nestes ensaios.
Depois que
fui descobrir que ele não trabalhava apenas na recepção de uma Editora, e sim,
na produção editorial como Coordenador Ilustrativo. Fui chamado pelo supervisor
dele e consegui um emprego de Desenhista Ilustrador. Até fui à Igreja depois
disso! Depois de muito tempo buscando, lutando, procurando dar uma guinada na
minha vida, Deus me enviou a pessoa certa.
Fiz uma
rotina de estudos, trabalho e lazer. Queria passar no vestibular, botei isso na
cabeça e não comentei com ninguém. Meus amigos me chamavam para as festas,
ensaios, e fatalmente, eu acabava negando algumas vezes. Só não negava todos os
convites para não perder as amizades. Eles bem que achavam estranho meu
isolamento. Só contei a todos que passei no vestibular quando já estava feita a
minha matrícula. Graças ao meu salário, ajudava a pagar as contas em nosso novo
endereço, em Ipanema, pagava a faculdade de Artes Plásticas e ainda comprei uma
moto.
A parte
esquisita, é que passei a ser, de certo modo, recluso. Isto porque me acostumei
a estudar, ler, desenhar e quando não fazia isto, me sentia culpado. Além de
sentir culpa, gostava, é claro. E foi assim, durante os quatro anos do curso. Os
meus amigos da Lapa me consideravam, talvez, velho e sem graça. Eu tentava ser
diferente, eu tento. Diversas vezes, no meio de minha euforia por estar
estudando e alavancando minha profissão, vinha aquele antigo desânimo. Uma
sensação de que esse stress de dormir pouco, desenhar, ter ideias sem parar,
reservar todo o tempo do mundo para estudar... Tudo isso, nunca iria acabar.
O que existe
de mais certo no mundo é que tudo um dia tem fim. Minha faculdade chegou ao fim.
Sentia um misto de felicidade, alívio e nostalgia. Eu, que nunca me deixava
derrubar lágrimas, desta vez não consegui segurá-las. Eu estava pegando o
canudo, havia muitos flashes, meus amigos e minha mãe, que me olhava emocionada
e orgulhosa. Estavam todos lá por mim e eu estava graduado e inseguro. Pensei:
“e agora? O que eu faço? Parecia tão distante e difícil de alcançar este
universo”. Olhei para o canudo novamente, me dirigi para a banca. “Pensando bem
foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: E daí? Eu tenho uma porção de
coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado”.
Inspirado na música:
OURO DE TOLO
Raul Seixas
Eu devia estar
contente
Porque eu tenho um
emprego
Sou um dito cidadão
respeitável
E ganho quatro mil
cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao
Senhor
Por ter tido sucesso
na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui
comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre
e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
fome por dois anos
Aqui na Cidade
Maravilhosa
Ah! Eu devia estar
sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente
vencido na vida
Mas eu acho isso uma
grande piada
E um tanto quanto
perigosa
Eu devia estar
contente
Por ter conseguido tudo
o que eu quis
Mas confesso
abestalhado
Que eu estou
decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz
pelo Senhor
Ter me concedido o
domingo
Pra ir com a família
ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito
chato sou eu
Que não acha nada
engraçado
Macaco praia, carro,
jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um
saco
É você olhar no
espelho
Se sentir um
grandessíssimo idiota
Saber que é humano,
ridículo, limitado
Que só usa dez por
cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita
que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo
com sua parte
Para nosso belo quadro
social
Eu que não me sento
No trono de um
apartamento
Com a boca escancarada
cheia de dentes
Esperando a morte
chegar
Porque longe das
cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu
olho que vê
Assenta a sombra
sonora de um disco voador
Eu que não me sento
No trono de um
apartamento
Com a boca escancarada
cheia de dentes
Esperando a morte
chegar
Porque longe das
cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu
olho que vê
Assenta a sombra
sonora de um disco voador
domingo, 17 de março de 2013
COMPREENSÃO
Nas
ocasiões em que morria alguém especial um sentimento de aperto a fazia chorar e
pensar: “Que pena, era tão jovem, coitado. Que tristeza que é a morte, como a vida é frágil”. No
final do dia, com tantas lágrimas derramadas, tentava afastar o medo de sua
própria morte e a morte de outros familiares ou amigos, então chegava uma hora
em que só queria descansar deste pesadelo e esperar um novo dia. Considerando
uma vida inteira, o sentimento que mais fazia Rebeca chorar era a raiva e mágoas, causadas por brigas. Nunca,
porém, imaginou que um sentimento de incompetência e inutilidade a abalasse tão
facilmente, cujo suspiro e respiração profunda, ao invés de acalmá-la, trouxessem
uma cachoeira de lágrimas velozes aos olhos. Uma impressão de que nunca progrediria
e que todos viam seu fracasso. Medo de errar novamente. Percebia, enfim, que não
só o corpo era frágil, mas o psicológico também caminha na corda bamba. Sentada
numa mureta, as lágrimas quentes escorriam pelas bochechas. Precisava ficar
sozinha. Estava indignada com sua incapacidade. Ao seu lado havia um mendigo agachado
num bueiro. Sentiu-se uma estúpida dramática reclamando de bobagens. Agora
chorava por ele.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
SIMPLES ASSIM
Fiquei bem à sua
frente. Ela gesticulava muito, mas eu mantive-a sob meus olhos. Eu tentava
falar e ela não me escutava, falava sem parar. Ao mesmo tempo em que
gesticulava, chorava, e isto me deixou desconfortável. Fiquei a pensar em meu
projeto, enquanto ela tagarelava eu fazia de conta que concordava com tudo.
Melhor não falar nessas horas. Uma pessoa passou por nós, difícil de
identificar rostos da silenciosa noite. Uma aliada. O homem foi-se andando sem
olhar para trás desapareceu. Enfim ela se cala balançando a cabeça
inconformada, talvez, por não obter respostas. Chegou a hora de gozar deste
momento. Acabou o tempo. Após cair duas lágrimas de seu rosto pálido e gelado,
atirei duas vezes à queima roupa. Abaixei-me e saí a rastejar.
A noite estava
gelada como sempre. Eu costumava passar sempre por uma rua de casas bonitas
antes de chegar à minha parada para pegar o ônibus. Sempre atento, avistei um
casal que discutia, era véspera do dia dos namorados. Procurei não olhar muito,
mas tenho boa audição e, infelizmente, sou fofoqueiro! Ouvido de fofoqueiro não
precisa se esforçar tanto. Antes de chegar até eles percebi que a garota
chorava, balançava as mãos como se estivesse se explicando de algo, fazia
movimentos de negação com a cabeça, pegava no celular e mostrava a ele. O homem
com ela era bem mais velho, nitidamente grisalho, alto e magro. Ela, uma jovem
morena que vestia jeans e blusa laranja. Foi o que pude ver. O homem não dizia
nada, não se mexia e não me olhou. Quando passei ouvi então ela dizer “você não
tem respeito por ninguém e mesmo assim estou tentando te fazer entender, já
disse tudo...” mais uns segundos passaram e ela completou com algo como “vou à
polícia”. Mas não sei, não tenho certeza
desta última frase. Em seguida antes de chegar ao meu destino, dei uma
olhadinha curiosa por entre um poste onde clareava parcialmente o rosto do
homem. Era parecido com um tio meu, os olhos pequenos e rasgados, o nariz
batatudo, barba por fazer. Eles estavam atrás de um carro. Ouvi dois tiros. Abaixei-me,
perplexo. No instante seguinte olhei novamente e como o homem sumira, corri até
ela. Estava perto ainda, mas nada do homem que a feriu. Não soube identificar
onde se originava os ferimentos. Chamei a polícia e ambulância. Quando a
polícia chegou, ela não respirava mais. A ambulância a levou direto ao IML. Não
sei de mais nada. Eu tenho boa memória, posso fazer Retrato Falado.
Por volta de
duas horas da manhã ele recebeu a convocação para receber a testemunha de um
crime. A moça se chamava Isabela, conforme seus documentos encontrados na
bolsa. As últimas ligações eram para a mãe, que também já estava lhe aguardando
na sala de interrogatório. Primeiro, falou com a testemunha, o rosto do
assassino já estava confeccionado e foi, posteriormente, mostrado à mãe. Ela
imediatamente reconheceu o homem. Seus olhos vidrados na imagem confessaram,
mas a boca negou. Suas suspeitas agora caíam sobre a mãe da garota. Na manhã
seguinte, procurou evidências no celular da moça. Entrou em e-mail, Skydrive, redes
sociais, imagens, vídeos e nada. Ao reler o depoimento do jovem que testemunhou
o detetive percebeu que poderia ter alguma palavra fora de lugar ou alterada.
As investigações seguiram. Ele foi à casa da falecida, em seu computador
parecia tudo normal, até entrar na lixeira. Havia um vídeo datado da semana
anterior ao assassinato. A gravação mostrava o próprio detetive fazendo uso de
cocaína juntamente com a irmã de Isabela e o padrasto, que faziam sexo no chão
do quarto da mãe. O caso estava encerrado para ele. Bastava achar o assassino e
apagar as provas.
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