Nas
ocasiões em que morria alguém especial um sentimento de aperto a fazia chorar e
pensar: “Que pena, era tão jovem, coitado. Que tristeza que é a morte, como a vida é frágil”. No
final do dia, com tantas lágrimas derramadas, tentava afastar o medo de sua
própria morte e a morte de outros familiares ou amigos, então chegava uma hora
em que só queria descansar deste pesadelo e esperar um novo dia. Considerando
uma vida inteira, o sentimento que mais fazia Rebeca chorar era a raiva e mágoas, causadas por brigas. Nunca,
porém, imaginou que um sentimento de incompetência e inutilidade a abalasse tão
facilmente, cujo suspiro e respiração profunda, ao invés de acalmá-la, trouxessem
uma cachoeira de lágrimas velozes aos olhos. Uma impressão de que nunca progrediria
e que todos viam seu fracasso. Medo de errar novamente. Percebia, enfim, que não
só o corpo era frágil, mas o psicológico também caminha na corda bamba. Sentada
numa mureta, as lágrimas quentes escorriam pelas bochechas. Precisava ficar
sozinha. Estava indignada com sua incapacidade. Ao seu lado havia um mendigo agachado
num bueiro. Sentiu-se uma estúpida dramática reclamando de bobagens. Agora
chorava por ele.
domingo, 17 de março de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
SIMPLES ASSIM
Fiquei bem à sua
frente. Ela gesticulava muito, mas eu mantive-a sob meus olhos. Eu tentava
falar e ela não me escutava, falava sem parar. Ao mesmo tempo em que
gesticulava, chorava, e isto me deixou desconfortável. Fiquei a pensar em meu
projeto, enquanto ela tagarelava eu fazia de conta que concordava com tudo.
Melhor não falar nessas horas. Uma pessoa passou por nós, difícil de
identificar rostos da silenciosa noite. Uma aliada. O homem foi-se andando sem
olhar para trás desapareceu. Enfim ela se cala balançando a cabeça
inconformada, talvez, por não obter respostas. Chegou a hora de gozar deste
momento. Acabou o tempo. Após cair duas lágrimas de seu rosto pálido e gelado,
atirei duas vezes à queima roupa. Abaixei-me e saí a rastejar.
A noite estava
gelada como sempre. Eu costumava passar sempre por uma rua de casas bonitas
antes de chegar à minha parada para pegar o ônibus. Sempre atento, avistei um
casal que discutia, era véspera do dia dos namorados. Procurei não olhar muito,
mas tenho boa audição e, infelizmente, sou fofoqueiro! Ouvido de fofoqueiro não
precisa se esforçar tanto. Antes de chegar até eles percebi que a garota
chorava, balançava as mãos como se estivesse se explicando de algo, fazia
movimentos de negação com a cabeça, pegava no celular e mostrava a ele. O homem
com ela era bem mais velho, nitidamente grisalho, alto e magro. Ela, uma jovem
morena que vestia jeans e blusa laranja. Foi o que pude ver. O homem não dizia
nada, não se mexia e não me olhou. Quando passei ouvi então ela dizer “você não
tem respeito por ninguém e mesmo assim estou tentando te fazer entender, já
disse tudo...” mais uns segundos passaram e ela completou com algo como “vou à
polícia”. Mas não sei, não tenho certeza
desta última frase. Em seguida antes de chegar ao meu destino, dei uma
olhadinha curiosa por entre um poste onde clareava parcialmente o rosto do
homem. Era parecido com um tio meu, os olhos pequenos e rasgados, o nariz
batatudo, barba por fazer. Eles estavam atrás de um carro. Ouvi dois tiros. Abaixei-me,
perplexo. No instante seguinte olhei novamente e como o homem sumira, corri até
ela. Estava perto ainda, mas nada do homem que a feriu. Não soube identificar
onde se originava os ferimentos. Chamei a polícia e ambulância. Quando a
polícia chegou, ela não respirava mais. A ambulância a levou direto ao IML. Não
sei de mais nada. Eu tenho boa memória, posso fazer Retrato Falado.
Por volta de
duas horas da manhã ele recebeu a convocação para receber a testemunha de um
crime. A moça se chamava Isabela, conforme seus documentos encontrados na
bolsa. As últimas ligações eram para a mãe, que também já estava lhe aguardando
na sala de interrogatório. Primeiro, falou com a testemunha, o rosto do
assassino já estava confeccionado e foi, posteriormente, mostrado à mãe. Ela
imediatamente reconheceu o homem. Seus olhos vidrados na imagem confessaram,
mas a boca negou. Suas suspeitas agora caíam sobre a mãe da garota. Na manhã
seguinte, procurou evidências no celular da moça. Entrou em e-mail, Skydrive, redes
sociais, imagens, vídeos e nada. Ao reler o depoimento do jovem que testemunhou
o detetive percebeu que poderia ter alguma palavra fora de lugar ou alterada.
As investigações seguiram. Ele foi à casa da falecida, em seu computador
parecia tudo normal, até entrar na lixeira. Havia um vídeo datado da semana
anterior ao assassinato. A gravação mostrava o próprio detetive fazendo uso de
cocaína juntamente com a irmã de Isabela e o padrasto, que faziam sexo no chão
do quarto da mãe. O caso estava encerrado para ele. Bastava achar o assassino e
apagar as provas.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Aventura
Ao passar pelas areias de Copacabana avistamos um imenso balão, estava anoitecendo, veríamos o pôr do sol de pertinho. O vento parecia estar a favor. Onde desceríamos não era importante, seria a maior aventura de nossas vidas: voar junto dos pássaros, passar dos telhados dos grandes prédios e ir além dos morros. Quando meus pensamentos estavam querendo chegar no quesito “segurança”, ele me trouxe minha bebida, que não era a água de coco, a qual eu havia pedido. Durante a longa fila de espera bebemos muitas latinhas de cerveja, rimos, fizemos alongamentos e o tempo passou. Quando eu queria ir ao banheiro ele ficava na fila e vice-versa. Uma hora, duas, três. Não desistíamos, estava chegando perto e parecia que quanto mais perto, mais demorava o andamento. Já fazíamos planos de voar também de asa-delta. Se eu vomitasse não pegaria na cabeça de ninguém mesmo! Um bêbado, mais bêbado que agente, arrumou briga na fila porque achava que deveriam distribuir água para as pessoas enquanto esperavam. Mais adiante um pastor gritava num palco improvisado, sem perceber que Deus escutaria do mesmo jeito se ele falasse normalmente. Tudo estava ótimo, mesmo quando eu perguntava a ele se aquela casinha não balançaria demais e derrubaria agente ou se o fogo não incendiaria nossa cabeça. Ele pegou minha caixinha milagrosa em seu bolso, tomei meu remédio do pânico, sem perceber que o álcool tiraria seu efeito. Uma moça pisou no meu pé e eu já não sentia meus dedos, não sentia minhas bochechas nem medo. A expectativa aumentava a sensação de liberdade dele e minha loucura. Enfim, restavam somente cinco pessoas. Ou eram mais de cinco? Bebemos tanto que acordamos de manhã com o rosto duro de queimaduras de sol. Pois é, a bebedeira ajudou a passar o tempo. Mas não vimos o balão voar.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
PRONTO PARA MATAR
Ele recebeu o telefonema tarde, alguém pedindo sua ajuda para um
trabalho árduo. Se não fosse um negócio consideravelmente bom, certo que não
iria, mas há muito tempo queria fazê-lo pessoalmente. O momento era esse. A
recompensa seria compensatória. Dirige-se a uma estante e pega abaixo dela uma
caixa grande. Sim, tinha que sair logo, mas seria breve. Acha finalmente seu machado. Seria suficiente. De estômago
vazio, pega as chaves e sai, está com suas botas
pretas, colocadas propositadamente para não manchar de sangue, uma camisa marrom e na calça Jeans velha, seu facão.
Ninguém no trânsito, ausência de buzinas. Seu olhar analítico já sabia de cor
onde seria a execução, uma pupila
vidrada e impaciente. Luzes ofuscavam nos luminosos por onde passava, mas não
havia mais nada nem ninguém. Logo que avistou uma delegacia virou na esquina
anterior rapidamente. O seu sangue frio o fazia acelerar, só de pensar que ela
fugisse. Chegou a uma casa verde e branca, como eram muitas outras casas deste
mesmo bairro, desta cidade vazia. A casa, porém, parecia ser o único lugar com
gente acordada, tudo estava calmo. Teria que ser rápido para não ouvirem os
gritos. Ele tinha a manha. Estacionou com perfeição fazendo apenas duas
manobras. Abriu a porta, após alguns passos pela grama molhada e quando ouviu
vozes parou. Olhou em volta, pegou o facão
por precaução. Percebeu que havia alguns desconhecidos, o que talvez não fosse
uma boa ideia. Entrou pela porta sem olhar para trás, no fundo do corredor
passou por uma mesa com bebidas e não fez cerimônia, tomou um copo de cerveja,
entrou no pátio e lá estava ela, atrás da cerca correndo, cambaleando e com
seus olhos arregalados. Estava machucada em uma das pernas. Quem o solicitou o
esperava em frente, um ar sério e cansado, cabelos brancos, vestindo um pijama
amassado e usando pantufas:
- Meu filho, sei que não é uma boa hora, mas estou velho para essas
coisas, pelo o que sei, tu ainda não jantou, então se tu quer comer, vai ter
que dar um jeito nessa galinha. Ela só grita e corre o tempo todo! – e então obedecendo
ao velho pai, o gaúcho olhou para a
galinha, entrou na cerca e a golpeou de uma vez só. Missão cumprida.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Publicado mais um Miniconto - Carolina Utinguassú Flores
Desta vez, para o site www.literaturadigital.com.br segue o link para visualização do meu Miniconto colorido: http://www.literaturadigital.com.br/minicontoscoloridos/miniconto.php?vermelho=100&verde=0&azul=25&button=Pinte+seu+Miniconto
domingo, 3 de fevereiro de 2013
UMA PRESSA INCONTROLÁVEL
Fui apresentado ao eletricista e fiquei aliviado, pois não
precisaria fazer eu mesmo o trabalho. Momentos antes eu estava quase cometendo
a burrice de mexer na rede, já que não aguentava mais a pressa em inaugurar meu
novo atelier, com belos retratos de molduras douradas, feitos por mim. Quem me
impediu de fazê-lo foi minha eficiente secretária, pois com eletricidade não se
brinca, então acatei. Às vezes penso se meu lado homossexual é a causa dessa
frescura, desse medo de eletricidade, do receio de arriscar, resolver os
problemas dos imprevistos que se atravessam nos meus preciosos minutos. Bem,
nada contra eletricistas, então me dirigi à sala principal, onde seriam feitos
reparos simples de troca de duas tomadas. Com isto, cessaria o inconveniente
das faíscas e aquele barulhinho chato indicando curto circuito. Entrei
calmamente e bem quieto, sem que ele pudesse perceber fiquei a admirá-lo. Eu,
magro e baixo, ele... Alto e forte. Fiquei a imaginar como seria aquele homem,
gosto de morenos. Certamente ele também era gay. Mas pensando e imaginando, não
pude controlar minha ereção. Poderia ter saído do mesmo jeito que entrei,
esquecendo totalmente dos fios que aquelas mãos pesadas tocavam. “Só que não.” Por
ali continuei e, ao virar para trás, o eletricista deparou-se comigo a analisá-lo.
Ficamos a nos olhar. Ficamos a nos olhar por alguns ansiosos instantes, ele sem
entender, desceu os olhos para minha bermuda. Ele percebeu. Espantado, voltou
sua cabeça para o que fazia anteriormente, pegou em um fio e sem prestar a
devida atenção cortou-o junto com outro, deixando uma falha na fita isolante. Levantou-se
com o olhar baixo, dizendo:
– Está feito, vou ligar a luz e depois acertar com a
secretária. – disse o eletricista, bufando e secando o suor, quase correndo até
o quadro de luz.
Após isto, nada mais. Apenas o cheiro de queimado misturado
com álcool. Acordei no hospital certo de que precisava mudar. Não era a
primeira vez que errava o alvo.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
A RUA DO BOSQUE
Havia muita
história a respeito da rua proibida. A tal rua do Bosque. Aliás, de bosque não
havia nada, era escura, sem flores, canteiros e árvores. Diziam que era a rua das
Ciganas. Há muito tempo, talvez um século atrás, elas foram tiradas das ruas
residenciais e comerciais, foram obrigadas a migrar para esta rua inabitada,
que mais parecia um corredor de cabanas iluminadas por candelabros. Muito tempo
depois, uma menina de rua, ou melhor, moradora de rua, mais precisamente do
centro desta cidade batizada de Aurora, foi vista no minimercado do Xixo. Ela
pagara uma maçã verde sem pagar. Este senhor, certo de que ela pegara também
dinheiro do caixa, que ficava na entrada do mercadinho, saiu a correr atrás
dela. Xixo correu até a cerca anterior à rua do Bosque. Então ele parou. Não
acreditava no que via. Provavelmente a menina não conhecia a história do local
para entrar sem medo nesta rua. Ninguém soube responder a esta questão e
ninguém se lembraria de seu pequeno rosto assustado se não fosse um fotógrafo
curioso que passava enquanto a menina e Xixo corriam. Ela hesitou por um
momento, olhando para trás, neste instante foi retratada com seus olhos da cor
da grama, os cabelos escuros despenteados pela corrida ao vento, os lábios
ressecados e o manto vermelho que a cobria em parte da cabeça. Os olhos
arregalaram-se com a luz do flash e sem saber o que fazer ela continuou a
correr já descalça, por entre a rua maldita.
Ela via
cabanas, via muitas mulheres cheias de jóias, longas saias e olhos grandes.
Pareciam-se todas umas com as outras. Não via homens, crianças ou idosos.
Caminhava lentamente, sem fôlego e cambaleando. Escurecia rapidamente. Parou e
olhou para a maçã já machucada. Sem hesitar, mordeu-a com força e mastigou
ferozmente. A fome era avassaladora. Não percebeu, portanto, os olhares
maliciosos em volta dela. O gosto passou a ficar diferente, certamente alguma
parte apodrecida. Levantou a cabeça e surpreendeu-se com a rapidez da
aproximação de tantas mulheres. A jovem esbelta que estava à sua frente pegou
de sua mão o caroço e fitou a mão pequenina abrindo-a totalmente. Decretou o
destino daquela alma em algumas frases e pouco a pouco a menina ouvia-as dentro
da mente. Fora hipnotizada, não tinha mais o controle de seu corpo e mente.
Como a maçã
ela se tornava eternamente verde e estragada. A única pessoa que a viu todas as
noites, até ser enterrado, foi o velho Xixo.
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