No peito há um relógio; na fonte, outro. O ponteiro gira e retoma o movimento, amplia o ritmo e reduz o tempo, todo o
tempo, infinitamente. Eu, uróboro, cresço e devoro-me, agarro meu rabo e atinjo o equilíbrio e a temperança feminina. Estou pronta. Contorço-me e me transformo em duas hélices conjugadas. Vou e volto através de meus polos. E agora, o que me resta? Tudo, ainda não estou pronta.
No jogo da vida passamos a bola, ao passar a bola não vemos mais nada, só a bola. Não vemos o fundo, não vemos as pistas, não vemos oportunidades. É preciso experiência para passar a ver outras bolas de outras cores, outros participantes do jogo, outros elementos. Planejar é bom, mas não demais. Fazer é que torna-se importante. Se colocar no lugar do outro, ver os lados opostos, ser homem e mulher, ser água quente e fria, contornar os obstáculos. Em 2014, integre-se com o mundo, com o planeta e os seres vivos. Busque sabedoria e equilíbrio. O relógio cósmico não para, mas algumas coisas podem ser retomadas e consertadas.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
A REALIDADE DAS LIDERANÇAS NO MEIO NATURAL
Não se iluda com o número de
páginas de um livro, isso não influencia na sua qualidade. De fato, descobri
esse importante detalhe ao ler “O Velho e
o Mar”, de Ernest Hemingway (originalmente publicado com o nome The man and the sea). Este pequeno livro
tem aproximadamente 100 páginas, foi publicado em 1952 e, dois anos depois,
recebeu o prêmio Nobel de literatura. Há uma grande integração com a natureza.
Riquezas e vivências, conhecimento que o personagem Santiago nos passa a
respeito da vida, pescaria, conhecimento de mundo e da natureza. Realmente
digno de premiações e com uma linguagem simples e atraente.
Já havia percebido a grandeza de
outros pequenos livros, como “A revolução
dos bichos”, de George Orwell (originalmente publicado com o nome Animal farm). Trata-se de uma história
envolvente onde os animais lutavam por mais cuidados, por sua liberdade e para
construir um espaço em harmonia com os bichos; trabalhando e cuidando de seu
próprio sustento sem precisar sustentar os humanos, nem tampouco dar-lhes
dinheiro sem receber nada em troca. Pouco a pouco, com a liderança dos porcos,
que dentre os animais eram os mais inteligentes, as coisas vão se dirigindo
para uma política capitalista e autoritária, muito próxima das práticas
humanas. Os porcos passam a se comportar como se fossem melhores que os outros,
pois tinham as melhores ideias e maiores responsabilidades. Fica evidente que
em todo o lugar onde for necessária uma liderança haverá disputa por poder e
corrupção. Assim como em “O Senhor das
Moscas”, de Willian Golding (originalmente publicado com o nome de Lord of the Flies), o contrário
acontece: os pais de um grupo de crianças inglesas providenciaram um avião, em
uma tentativa de tirá-los dos bombardeios da Inglaterra, que durante a viagem caiu
em uma ilha deserta. O piloto morre, as
crianças ficam sozinhas, sem adultos ou qualquer instituição, forçados a viver
juntos em um estado natural. Da civilização, passam aos poucos a esquecer;
precisam de alimentos e manter a fogueira acessa para o caso de aparecer
regate. Porém, nem todos estão de acordo. O instinto da caça fala mais alto no
grupo do Coro, liderado por Jack e, do outro lado o grupo de escolares, liderados
por Ralph, que tenta manter a ordem, respeito e dignidade. Este, de fato, é um
livro mais grosso e com mais detalhes e simbolismos, percebe-se que inserido em
estado natural, nosso lado selvagem fala mais alto.
A necessidade de sobrevivência
nos faz selvagens? Ou sempre fomos? Somos todos irmãos: humanos e não-humanos.
Precisamos dos animais para nos acompanhar, para manter o equilíbrio, para
mantermos nosso sustento. Eles nos ensinam a ter persistência, ter força, ter coragem
e, ainda, são incrivelmente belos. Nós existimos para proporcionar que eles se
reproduzam, para manter a ordem e para garantir que nossos irmãos, os animais,
tenham sua serventia, pois cada espécie tem seu valor e suas características
específicas, dependendo do meio em que vivem. Nós não somos nada mais do que
animais habitando cidades; já os animais são humanos que habitam a floresta. Nenhum
é melhor do que o outro; nós não somos melhores que ninguém. Essa é a realidade.
A realidade também é subjetiva e espacial, isto é, depende do ponto de vista
dizer o que é real. Esse é o meu ponto de vista que pertence ao meu
conhecimento de mundo e à minha imaginação.
domingo, 22 de setembro de 2013
Indicação de leitura
Tenho pensado muito na forma como viviam e vivem os Ìndios, a pureza, a sabedoria, alimentação, costumes. Além de eu ser descendente de Índios, minha pesquisa sobre a Ecocrítica, em especial na obra Avalovara, de Osman Lins, tem caminhado para este lado. Ou sou eu que tenho me inclinado à isso? O fato é que pela perspectiva da Ecocrítica não existe uma linha divisória entre humanos e não humanos, a natureza e seus elementos estão integrados e mediam as relações entre os seres. Por tudo isso, ninguém melhor que os primeiros donos da nossa natureza para que percebamos a importância do meio ambiente e do amor que deveríamos ter com ele.
Este livro retrata todo esse amor
e respeito.
Este livro retrata todo esse amor
e respeito.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Contos de Som e Silêncio
Para quem gosta de literatura, arte, música, inovação, etc., ofereço meu livro e de meus colegas de contos! São contos inspirados em letras de músicas, a minha é Medo da Chuva, de Raul Seixas e Paulo Coelho. Há outros 12 contos com autores de diversas partes do Brasil, diversas músicas para sonhar, viajar. Seguem os nomes dos autores:
Alexandre Braoios,
Bertolina Maffei,
Carolina Utinguassu Flores (eu),
Clara Oliveira,
Érika Gentile,
Evelena Boening,
Fatima de Barros Plein,
Fernanda Carvalho,
Isi Caruso,
Jussara Maria Nodari Lucena,
Marcelo Spalding,
Marcio Tadeu Furrier e
Valesca dos Santos Pederiva.
LER É MANTER-SE VIVO, CRIAR É
PARTICIPAR DO MUNDO, PESQUISAR É
EXPANDIR HORIZONTES, COMPARTILHAR É
ESTAR NO CENTRO DA TERRA, REGAR A ÁRVORE É ADQUIRIR GALHOS, GALHOS SÃO CONHECIMENTO, CONHECIMENTO É MANTER-
-SE VIVO PARA REPETIR A LEITURA.
Tudo é repetição em ritmo, a cada repetição
eu cresço. A espiral nunca acaba.
Por Carolina Utinguassu Flores
Interessados em comprar esta bela coletânea (R$ 15,00) entrar em contato pelo e-mail: carolflores02@hotmail.com
![]() |
| Livro coletivo - Organizado por Marcelo Spalding |
Alexandre Braoios,
Bertolina Maffei,
Carolina Utinguassu Flores (eu),
Clara Oliveira,
Érika Gentile,
Evelena Boening,
Fatima de Barros Plein,
Fernanda Carvalho,
Isi Caruso,
Jussara Maria Nodari Lucena,
Marcelo Spalding,
Marcio Tadeu Furrier e
Valesca dos Santos Pederiva.
LER É MANTER-SE VIVO, CRIAR É
PARTICIPAR DO MUNDO, PESQUISAR É
EXPANDIR HORIZONTES, COMPARTILHAR É
ESTAR NO CENTRO DA TERRA, REGAR A ÁRVORE É ADQUIRIR GALHOS, GALHOS SÃO CONHECIMENTO, CONHECIMENTO É MANTER-
-SE VIVO PARA REPETIR A LEITURA.
Tudo é repetição em ritmo, a cada repetição
eu cresço. A espiral nunca acaba.
Por Carolina Utinguassu Flores
Interessados em comprar esta bela coletânea (R$ 15,00) entrar em contato pelo e-mail: carolflores02@hotmail.com
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
A ESPAÇOSA
Quero escrever, escrevo agora como nunca escrevi antes. Todos os nomes
me vêm à mente, expressões e vontades irrequietas para serem projetadas,
produzidas e empurradas para o grande mundo que existe fora da barriga.
Achava que não gostava de poesia, achava que não conhecia a métrica, o
ritmo e a profundidade de poetizar. Achava que não iria querer coisas que,
agora, se encaminham para um “sim, eu aceito”. Parecia que nunca casaria e
então, como um presente de Deus espontâneo eu tenho agora o maior de todos os
casamentos do cosmos e suas raízes, de
outros pequenos casamentos, outros radianos com diferentes ângulos que se desprendem do
núcleo que gira em torno de uma grande luz. Vejo a luz contornando os caminhos,
vejo a luz mesmo quando ela dá lugar à escuridão que também é bela.
Obrigada Renato Russo por cantar para mim sem eu pedir e me mostrar o
que nunca enxerguei nas palavras soltas que simbolizam o que pensava minutos
antes, se disciplina é liberdade, já estou livre. Hoje eu sofro para rir, e
muito, amanhã.
Estou quietinha, mas trabalhando a mente. Meu descanso é quando
exercito o corpo. Estou no caminho certo, ninguém precisa afirmar, sei quando
estou errada e quando não estou. Crio, copio, modifico, parafraseio, conto. Tudo
começa em um conto, por isso comecei, fiz, faço e farei. Não farei para ganhar
dinheiro, farei para que um dia eu não esteja mais aqui e escute de cima muitas
vozes falando de minhas obras e pontos de vista. Então não morrerei. Será, então,
que reencarnarei? Se reencarnar, ouvirei as vozes chamando meu antigo nome? As
engrenagens lunares e solares estão engrenadas
entre o movimento planetário mágico e cíclico, infinitamente gerando o caos,
pois nada é totalmente linear. Assim não é o ciclo masculino, muito menos será
o feminino.
O que seria dos inteligentes se não existissem os burros? O que seria
dos espaços vazios se não existissem os espaços preenchidos? Nada existiria,
nada se sobressairia ou se confundiria. Se meus quadris não doessem mais eu
poderia ser mais feliz, mas quem não tem limitações? Quem não tem seu lado
ímpar? Não sou retilínea, não sou curvilínea, tenho minha própria forma, ordem
e espaço. Sou “uma” coisa única, mas não sou redonda. Sou limitada, mas não
quadrada. Achava que não queria. Achava que não chegaria a ser geométrica.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Orgulho de ser pensante
As pessoas felizes não agridem. A crueldade é característica
dos cultos. Quem é inteligente, não precisa xingar, ser grosso ou gritar,
apenas dizer o necessário para tocar fundo o receptor. A violência é fruto da
nossa falta de comunicação ou estudo. As mágoas não levam a nada, são prisões
com fortes grades que ofuscam o brilho dos olhos, mas existem. Só sei que, por
mais que elas queiram fazer parte de mim, eu não vou deixar. Mesmo que esteja
sozinha. Aproveito a falta de convite, aproveito meu momento. Então, por que não perdoar? Relevar? Perdoar é
sabedoria, não é fraqueza, é ser nobre, é saudável. Só assim é que chegamos a
um progresso interior que permite à felicidade se instalar. Antes dela, temos
que chorar muito mais do que sorrir para dar valor ao que já adquirimos.
Devemos ter um projeto que envolve educação da mente, reforma espiritual e mentalização. O ciúme
também consome muita energia... deixe de lado, se não for algo realmente sério.
Quando nos achamos azarados, pé-frio ou dedo podre, de algum desses acontecimentos, que às vezes parece ser ruim, surge o
lado bom. O projeto é ser feliz. Se eu tivesse que anotar algo para colocar na
minha lápide do cemitério, colocaria meu tempo de felicidade subtraídas as tristezas, pois
meus dias felizes são incontáveis.
Lembre-se:
Quem lê enxerga melhor nas entrelinhas e nos simbolismos da
Palavra.
Crie, invente, brinque!
Use de acurácia ao escrever, lapide, transforme seu texto!
Organizar o pensamento inaugura mundos novos, escolhas e
ações.
Concilie vida e palavra
Invente um D. Pedro III
domingo, 14 de abril de 2013
OURO DE TOLO
Eu tinha
apenas cinco anos. Morávamos em uma casa na Lapa. Meu pai era alcoólatra. Certa
vez, chegou em casa “naquele estado”, bateu em minha mãe, em mim e quebrou tudo
dentro de casa. Ela também batia nele. Esta cena se tornou comum. Eu não
entendia muita coisa, só sentia medo. Era estranho ver minha mãe sempre triste,
os vizinhos sempre preocupados e oferecendo ajuda. Era um clima de incertezas e
pânico. Cada vez que ele chegava bêbado, meu peito doía, mesmo com toda a
vontade de brincar que existe dentro de uma criança desta idade, vinha uma
imensa sensação de paralisia. Minha mãe não aguentou mais aquela situação,
mandou-o embora e pediu ajuda aos vizinhos. Ele foi, levando todos os nossos
móveis, com exceção da geladeira, fogão, um colchão, televisão, umas almofadas
e o rádio. Na outra semana, porém, estava eu sentado nas almofadas vendo
televisão e ele chegou. “Oi filho”, disse ele entrando. Assustado e
acompanhando seus passos eu respondi apenas “Oi”. Ele pegou o rádio, explicando
que era dele e precisava levá-lo. Quando minha mãe chegou do trabalho contei a
ela. Sentou-se no chão e chorou calada. Perguntei por que ela estava chorando.
Ela me disse que estava apenas lavando os olhos por dentro. Tivemos muitas
dificuldades financeiras e passamos fome por dois anos. Para ela sair para
trabalhar era necessário que eu esquentasse minha comida para almoçar, sozinho,
assim como ir para o colégio, sozinho, pegando dois ônibus. Eu tinha seis anos.
Minha adolescência foi conturbada, não queria
estudar nem pensar em trabalho. Só queria namorar, andar de skate, desenhar,
jogar bola e vídeo game. Quando fiz dezenove anos, percebi que era hora de
mudar, via minha mãe desesperada para nos sustentar, “ainda”, fazendo tudo para
que eu tivesse mais responsabilidade. Mas eu não sabia o que fazer e ficava
nervoso. Quando sentia aquele aperto no peito, pensava na única coisa que meu
pai me ensinou, num dia que estava sóbrio. Ele me disse: “Quando você ficar
nervoso ou com medo, respire fundo até acabar o ar do pulmão e solte
lentamente, que então passará”. Via as outras pessoas trabalhando normalmente,
e eu, naquele dilema. Se gostava de algo, ou não, nem sabia. Quando me olhava
no espelho sentia nojo daquela imagem: magricelo, barbudo, alto demais. Minhas
roupas eram todas velhas, de pessoas que não as queriam mais. Precisava de um
emprego pelo menos para comprar coisas que ela não podia me dar. Elaborei uma
lista de coisas que gostava. Eu gostava de desenho, música e de ler. Precisava
de um norte. Uma tia minha me disse que isso tudo era um hobby. Continuei
desenhando e ouvindo minhas músicas. Meus desenhos eram macabros, demoníacos e
monstruosos. Como alguém, além de mim, poderia gostar deles? Acho que a música
sempre me inspirou. Sem ela, eu não fazia nada, nem comia. Senti muita vontade
de comprar um violão e aprender a tocar. Minha família toda estava preocupada
comigo, minhas primas, tios e tias, avó e... arrumei um amigo, que também se
mostrava confuso com minhas escolhas, ou a falta delas. O cara se chamava
Érico, e eu, desculpe não ter me apresentado antes, me chamo Léo. Leonardo
Martins. Ficamos amigos um dia que ele se interessou por um papel amassado que
joguei no pátio dele. Era para ter ficado furioso, se fosse eu, ficaria.
De vez em
quando ele me pedia para fazer certos tipos de desenhos com foco em quadrinhos,
charge, etc. Tinha o apoio dele, então, finalmente estava decidido a buscar
trabalho como Desenhista. Eu não queria mais aceitar a ideia de que era apenas
um hobby. Eu sabia que tinha algum talento. Através do Érico conheci outras
pessoas da Lapa que quase toda a semana se encontrava nos ensaios da Banda.
Convidaram-me para tocar com eles diversas vezes, mas eu não estava preparado.
Eu aproveitava para comer bastante das pidzzas da mãe do Érico nestes ensaios.
Depois que
fui descobrir que ele não trabalhava apenas na recepção de uma Editora, e sim,
na produção editorial como Coordenador Ilustrativo. Fui chamado pelo supervisor
dele e consegui um emprego de Desenhista Ilustrador. Até fui à Igreja depois
disso! Depois de muito tempo buscando, lutando, procurando dar uma guinada na
minha vida, Deus me enviou a pessoa certa.
Fiz uma
rotina de estudos, trabalho e lazer. Queria passar no vestibular, botei isso na
cabeça e não comentei com ninguém. Meus amigos me chamavam para as festas,
ensaios, e fatalmente, eu acabava negando algumas vezes. Só não negava todos os
convites para não perder as amizades. Eles bem que achavam estranho meu
isolamento. Só contei a todos que passei no vestibular quando já estava feita a
minha matrícula. Graças ao meu salário, ajudava a pagar as contas em nosso novo
endereço, em Ipanema, pagava a faculdade de Artes Plásticas e ainda comprei uma
moto.
A parte
esquisita, é que passei a ser, de certo modo, recluso. Isto porque me acostumei
a estudar, ler, desenhar e quando não fazia isto, me sentia culpado. Além de
sentir culpa, gostava, é claro. E foi assim, durante os quatro anos do curso. Os
meus amigos da Lapa me consideravam, talvez, velho e sem graça. Eu tentava ser
diferente, eu tento. Diversas vezes, no meio de minha euforia por estar
estudando e alavancando minha profissão, vinha aquele antigo desânimo. Uma
sensação de que esse stress de dormir pouco, desenhar, ter ideias sem parar,
reservar todo o tempo do mundo para estudar... Tudo isso, nunca iria acabar.
O que existe
de mais certo no mundo é que tudo um dia tem fim. Minha faculdade chegou ao fim.
Sentia um misto de felicidade, alívio e nostalgia. Eu, que nunca me deixava
derrubar lágrimas, desta vez não consegui segurá-las. Eu estava pegando o
canudo, havia muitos flashes, meus amigos e minha mãe, que me olhava emocionada
e orgulhosa. Estavam todos lá por mim e eu estava graduado e inseguro. Pensei:
“e agora? O que eu faço? Parecia tão distante e difícil de alcançar este
universo”. Olhei para o canudo novamente, me dirigi para a banca. “Pensando bem
foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: E daí? Eu tenho uma porção de
coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado”.
Inspirado na música:
OURO DE TOLO
Raul Seixas
Eu devia estar
contente
Porque eu tenho um
emprego
Sou um dito cidadão
respeitável
E ganho quatro mil
cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao
Senhor
Por ter tido sucesso
na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui
comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre
e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
fome por dois anos
Aqui na Cidade
Maravilhosa
Ah! Eu devia estar
sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente
vencido na vida
Mas eu acho isso uma
grande piada
E um tanto quanto
perigosa
Eu devia estar
contente
Por ter conseguido tudo
o que eu quis
Mas confesso
abestalhado
Que eu estou
decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz
pelo Senhor
Ter me concedido o
domingo
Pra ir com a família
ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito
chato sou eu
Que não acha nada
engraçado
Macaco praia, carro,
jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um
saco
É você olhar no
espelho
Se sentir um
grandessíssimo idiota
Saber que é humano,
ridículo, limitado
Que só usa dez por
cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita
que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo
com sua parte
Para nosso belo quadro
social
Eu que não me sento
No trono de um
apartamento
Com a boca escancarada
cheia de dentes
Esperando a morte
chegar
Porque longe das
cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu
olho que vê
Assenta a sombra
sonora de um disco voador
Eu que não me sento
No trono de um
apartamento
Com a boca escancarada
cheia de dentes
Esperando a morte
chegar
Porque longe das
cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu
olho que vê
Assenta a sombra
sonora de um disco voador
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